sexta-feira, 10 de julho de 2026

À sombra do labirinto

Na vértice da sombra
Bordei um colar de aves
Ao redor do teu pescoço esguio.

Reacende. Esta chama em mim. 
Faísca de um incidente 
No teu coração. 

Som. Erguemos a palavra.
Labirinto. Sobrevoamos
À beira de um suspiro. 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

dos Anjos

               À Alexei Bueno


o verme reconta a história do teu corpo
caducamos a palavra 
a rosa está em delírio.

o vermelho da memória
cospe em meu rosto
o teu corpo de escultura me acena. 

o teu corpo e o último aceno
dançamos dentro de um copo
Rum Bacardi. 

o teu rosto é a figura do corvo
Augusto. Alexei.

que os Anjos velem 
             por ti. 

sábado, 20 de junho de 2026

fundo do mar

não previa alcançar 
a penumbra do fundo do mar 

dormente
ferido de amor 
e assombro 

você a minha concha

e eu, uma pérola,
na profundeza
cravada do teu ombro

domingo, 14 de junho de 2026

galope

com os campos líricos e rítmicos 
das palavras tive um sonho 

galopava, esparsa entre nuvens 
lilases. órbitando a solidão 
da sombra
dos pássaros

firmes as mãos entorno 
da crina de um cavalo azul-neblina

a ferida do teu silêncio impressa 
no meu aceno descolorido

acordo. a manhã me parecia 
a extensão da estrada infinda:
aquela reticência furiosa. 

terça-feira, 19 de maio de 2026

sintoma

o amor me agride por escândalo 

vampiro vermelho vulgar
suspeito
             HEMATOMA
[falta-nos o ar]

o poema imprimiu o próprio gesto
na minha jugular 

terça-feira, 28 de abril de 2026

erguer uma primavera 
ao teu lado
para te dizer – 

venha, meu amor,
desabroche em meus braços 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

memória da palavra

pavor de residir em um sítio 
que nos devore o desejo,

esquecer a palavra – embora
não a tenha decorado.

à margem da folha, 
na esquina do teu beijo. existo.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Nada

segundo Paulo, há uma tarefa delicada 
e um esforço árduo de escolher 
ser
[Nada. 

no espaço entre existir e não querer,
haverá uma palavra, 
ainda que mínima

aquela que nunca seria pronunciada. 

embora, por uma única razão 
escolhemos
ter
[Nada.

aquela mudez indescritível. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Adélia Prado diz em seu poema 
que as vezes Deus tira-lhe a poesia. 

ontem achei que você havia tomado
a poesia de mim. engano.

o que você me tirou foi o tempo 
perdido que teria ao seu lado.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

beijo no asfalto II

olhei para uma faixa de linha 
azul no céu, jurei que era o reflexo 
atropelado do teu olhar que
me espreitou. 

o poema se encerrou quando, 
sem reflexo, o menino de bicicleta 
na faixa de linha azul no chão
me atropelou. 


quarta-feira, 18 de março de 2026

Embora

            à Paulo Henriques Britto

não iremos jamais

embora
o poema 
               já esteja pronto. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

sexo animal da flora

serás tu, junto a mim,
pedra. malícia incrustada na vértebra 
morosa de um arbusto fecundo. 

e fruto mordiscado. veia arterial. 
e seio da paragem do líquido das flores. 
serás flor no cio, rito e âmago maduro. 

serás tu, junto a mim, 
ciclo duradoiro e viscoso. 
busca-se tradução para o sexo animal
da flora. de uma história ainda 
não pronunciada. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lisboa

contemplo a paisagem da janela
do teu olhar arquitetônico 

me ponho à espreita na posição
de uma felina de mármore. 

harmônico, suspeito 
das tuas palavras:

de pedras lapidadas 
enfeito o meu pescoço.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

as ambulâncias não ligam as sirenes



você lembra das minhas tetas apontando 
ao horizonte, tristes 
dos três tigres
do cansaço das ambulâncias  
e da velocidade dos carros vermelhos 

você me disse que ninguém tinha 
mais livros empilhados do que eu 
e eu recordo que ninguém 
tem tanta saudade 
apontando vermelha a essa luz e hora 
.

modelo-vivo: Marcela Corrêa Müller @alecri.am

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

diurno

farejei as minhas mãos
e elas ainda resguardam 
o semblante afobado 
do teu corpo diurno,

há dias, o líquido de um Sol
que não se pôs na sombra. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

máquina

os olhos enferrujados 

e o coração 

fez o uivo


de um pneu perfurado

na Avenida Atlântica


essa voz mecânica: alô? quem fala?


eu só queria que esse poema chegasse 

até os seus ouvidos

domingo, 4 de janeiro de 2026

ausente

decaptaram
a palavra

como quem arranca
do pescoço um colar de pérolas –

ausente do que ainda não tem nome.