segunda-feira, 2 de março de 2026

sexo animal da flora

serás tu, junto a mim,
pedra. malícia incrustada na vértebra 
morosa de um arbusto fecundo. 

e fruto mordiscado. veia arterial. 
e seio da paragem do líquido das flores. 
serás flor no cio, rito e âmago maduro. 

serás tu, junto a mim, 
ciclo duradoiro e viscoso. 
busca-se tradução para o sexo animal
da flora. de uma história ainda 
não pronunciada. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Lisboa

contemplo a paisagem da janela
do teu olhar arquitetônico 

me ponho à espreita na posição
de uma felina de mármore. 

harmônico, suspeito 
das tuas palavras:

de pedras lapidadas 
enfeito o meu pescoço.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

as ambulâncias não ligam as sirenes



você lembra das minhas tetas apontando 
ao horizonte, tristes 
dos três tigres
do cansaço das ambulâncias  
e da velocidade dos carros vermelhos 

você me disse que ninguém tinha 
mais livros empilhados do que eu 
e eu recordo que ninguém 
tem tanta saudade 
apontando vermelha a essa luz e hora 
.

modelo-vivo: Marcela Corrêa Müller @alecri.am

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

diurno

farejei as minhas mãos
e elas ainda resguardam 
o semblante afobado 
do teu corpo diurno,

há dias, o líquido de um Sol
que não se pôs na sombra. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

máquina

os olhos enferrujados 

e o coração 

fez o uivo


de um pneu perfurado

na Avenida Atlântica


essa voz mecânica: alô? quem fala?


eu só queria que esse poema chegasse 

até os seus ouvidos

domingo, 4 de janeiro de 2026

ausente

decaptaram
a palavra

como quem arranca
do pescoço um colar de pérolas –

ausente do que ainda não tem nome. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Receita de Ano Novo de Carlos Drummond de Andrade