terça-feira, 29 de setembro de 2026

língua morna

haverá uma beleza 
perpétua, como ressuscitar 
uma língua morta?

criar um novo sinônimo 
capaz de adiar 
a dureza
dos ombros franzindo 

leio um poema que parece ser infinito:
o desassossego da sua língua morna. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

do Sul

passaram-se anos, 
estou à mesa, 
nessa que se tornou museológica,
com um copo de vidro americano
suando. da América do Sul. 

dentro deste território que eu te dei,
além de amor. Paz.
paz que nunca encontraremos. 
mas almejar é o verbo predestinado
a nós. 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

crônica

quando te percebo sinto dentro 
da clausura da sala 501 
as cores do bairro 
incendiarem as dobras dos rostos

estou encandecida 
tanto quanto te vejo
assim como a avenida 
da Central redobrada de saudade 

e o meu beijo. o cenário da tua crônica.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

7 vidas

atravesso a sala como um gato
à espreita da margem da noite

felina, abro uma longneck
com atenção aos uivos do corredor

antes de deslizar para o quarto,
atenta, paro no arco da entrada

da cama dela, assisto ao gesto 
da sua lívida respiração

lenta, cálida, solene, sutil. senil

imagino, minha mãe, 
assim como um gato, devia ter 7 vidas

sexta-feira, 10 de julho de 2026

À sombra do labirinto

Na vértice da sombra
Bordei um colar de aves
Ao redor do teu pescoço esguio.

Reacende. Esta chama em mim. 
Faísca de um incidente 
No teu coração. 

Som. Erguemos a palavra.
Labirinto. Sobrevoamos
À beira de um suspiro. 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

dos Anjos

               À Alexei Bueno


o verme reconta a história do teu corpo
caducamos a palavra 
a rosa está em delírio.

o vermelho da memória
cospe em meu rosto
o teu corpo de escultura me acena. 

o teu corpo e o último aceno
dançamos dentro de um copo
Rum Bacardi. 

o teu rosto é a figura do corvo
Augusto. Alexei.

que os Anjos velem 
             por ti.