terça-feira, 28 de abril de 2026

erguer uma primavera 
ao teu lado
para te dizer – 

venha, meu amor,
desabroche em meus braços. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Existir

pavor de residir em um sítio 
que nos devore o desejo,

esquecer a palavra – embora
não a tenha decorado.

à margem da folha, 
na esquina do teu beijo. existo.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

mudez indescritível

segundo Paulo, há uma tarefa delicada 
e um esforço árduo de escolher 
ser ninguém.

no espaço entre existir e não ser,
há de haver uma palavra, 
ainda que mínima:

aquela que nunca seria pronunciada. 

por uma única razão escolhemos
ser. aquela mudez indescritível. 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Adélia Prado diz em seu poema 
que as vezes Deus tira-lhe a poesia. 

Ontem achei que você havia-me tirado 
a poesia. Me enganei. 

O que você me tirou foi o engano –
o tempo perdido que teria ao seu lado. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

beijo no asfalto II

olhei para uma faixa de linha 
azul no céu, jurei que era o reflexo 
atropelado do teu olhar que
me espreitou. 

o poema se encerrou quando, 
sem reflexo, o menino de bicicleta 
na faixa de linha azul no chão
me atropelou. 


quarta-feira, 18 de março de 2026

Embora

            à Paulo Henriques Britto

não iremos jamais

embora
o poema 
               já esteja pronto. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

sexo animal da flora

serás tu, junto a mim,
pedra. malícia incrustada na vértebra 
morosa de um arbusto fecundo. 

e fruto mordiscado. veia arterial. 
e seio da paragem do líquido das flores. 
serás flor no cio, rito e âmago maduro. 

serás tu, junto a mim, 
ciclo duradoiro e viscoso. 
busca-se tradução para o sexo animal
da flora. de uma história ainda 
não pronunciada.