quinta-feira, 26 de maio de 2016

um mês tem dias tristes

mais de trinta
muito mais de trinta
mais de uma
todas, todas submetidas
mais de trinta abusos ao dia
e a indignação
é vista como caso de histeria
todas, todas submetidas
violação
argumento pra punição
mais de trinta denúncias
e nenhuma solução

quarta-feira, 18 de maio de 2016

como?

bebo teu nome
tua cor desbotada
e os olhos de vidro
me vivem como se amor existisse
além do romance nos livros
assim como se fosse matéria
cada glóbulo pulsando meu gosto
então engulo tuas digitais
os rastros no chão envernizado
a cólera precoce
esse mundo destilado
toda conversa amarrotada
na caixa torácica
mesmo atrás da porta
onde não possamos passar
bebo teu cheiro de árvore viçosa
pulsando descompasso
em agito bucólico
só pra dizer que te vivo
após os comas alcoólicos

terça-feira, 10 de maio de 2016

alguma prosa há de surgir
e desbravar meus mares
assim depressa
antes da pose
na foto
pro quadro
naquela hora imprecisa
assim bem rápido
só com o medo 
na ponta do dedo
no centro do umbigo
quase perdida 
sem amar
a prosa surgirá
mesmo que encolhida
sem pausa pro almoço
fumando Malboro
na porta do bar
bela
endereçada
com a boca pintada
aguardando hora exata
de se amostrar 
um monumento
sem juros 
de graça
a prosa está fadada
a mofar num caderno sem pauta

domingo, 1 de maio de 2016

é só erguer a cabeça que o mundo desaba

o céu me cobre de
he ma to mas
como se atravessasse 
o papel carbono
e imprimisse as cores
em cada página
insisto
cê assistindo
o cobrir de rima
numa tela sem cor
palavras soam ternas 
e a tempestade
desfaz a cautela
só com grito vento
mais firme
assim um estrondo
forte capaz
de nos amolecer
o céu é fosco e fere o corpo
transeunte
a
noite
Ser

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Busca

Deito atônita a aspirar tua tradução simultânea
Dedos profanando a gramática normativa
Dentro do padrão desgastado de roupa íntima
Como uma poetisa que desfila a caligrafia
Hei de desbravar teu corpo infinito

- À espera de um resquício no tom áspero da preguiça
Embargando o ritmo da língua evocado pelo trânsito das horas -

Tu tomaria meu gosto de ontem
Só com a fome debaixo do lençol macio
Tu seria meu acorde
O verso ébrio de um outono gasto
Como uma missão de morte e vida
Hei de desvendar tuas rimas

segunda-feira, 18 de abril de 2016

à prosa

ouvi falar do riso solto mudo
e sobre as rodas de conversa que proseavam
sobre os amores, e olhe só se há amor aqui na mesa
pude ouvir o vento também
correndo chorando de dor de pressa
como se eu existisse à mercê do incompreensível
que bruto brota dentro dessa tripa maior
assim sem palavra bonita pros órgãos espremidos
porque é tudo merda essa vida esse ar

já ouvi falar do riso quando encostado no ouvido:

gemido

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Zoom

Novamente dentro de mim. Não vejo nada. Só eu, e me vejo assim, complexa, sem medo, introvertida, salobra. O calor é meu, o choro, suor, cílio, desce e cai em cima da lã do vestido. Água evapora, tristeza não. Tristeza é feita de outro elemento, então a gente tem que aturar até no sol, nos dias de mormaço e de bafo no rosto. É como diz gente pra lá e pra cá que amor é coisa pra gente dura, mas é cada uma que aparece assim como se fosse luz numa tela escura num quarto trancado quando aferrolho os olhos só com medo de ver. Volto, afirmo, existe medo. Talvez não esse que se vê, mas daqueles que só sente e esconde onde o coração esqueça. Memória é questão de perspectiva mesmo nunca tendo alcançado a minha; sei que é fácil falar, escrever, tentar criar prosa poética - sobreviver. Sobreviver não. Quero ver rimar com a vida, ponto e vírgula.