sexta-feira, 4 de novembro de 2016

as vozes
o repertório
repetido
tanto
que parece eco
de uma memória
irremediável
a voz
no escuro
em claro
estão no mudo
convulso
barulho invisível
de bocas imóveis
o que sou
você me pergunta
piscaria se olhos tivesse
como resposta simultânea
e guardo relíquias
insubstituíveis
se palavras fossem  sons
tanta cólera por isso
esse silêncio tentei
vezes trancafiada
noite é entrada
soam vozes
geradas
murmúrio
soa lágrima no lábio inerte
e corre sincrônico
soluço
preciosa pressa
causar língua
grito desumano
severo e
indizível
cedendo relato
mínimo
abrir a boca
o instante fala
uso impreciso   palavras
sentido
só o que sinto

ver
buscando dizer

o que fomos perdido?

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Quentura

sem pressa
o barulho da manhã
desnorteou tempo que tinha
pra pensar no poema

é que brilhou tão firme
que parecia ter nascido
aurora boreal no sul
do corpo
como se fogo
fizesse por dentro faísca
cinza e ventania

tenho pressa não
hoje passou segunda, terça
vento verão
veloz insolação

ô dias se vão
vê, tristeza
faz estrago
de um vulcão

domingo, 16 de outubro de 2016

atualmente
bate
nostalgia de
voar

desencanto luz do azul
pássarinho
lar e coração
fervoroso
sol de verão

asfalto fogo
pés
são teus pecados
reluzentes

re fujo
só a cor ainda brilha
e o peito
batida

só

homens sós no canto do quarto
e no peito há uma planície de decretos
no meio fio da gilete você me encara
como uma cena de filme pornô
enquanto se ouve o gozo da terra num sopro
na falha entre dois olhos se debatendo

assim como asa de borboleta
assim eu fico meio atordoada
se faz mover meus dedos com rapidez
no desamparo da borda
de uma carta ainda não escrita

não é que tenha desistido das cartas
sabendo da inquietude das palavras
e do escasso consolo do seu semblante

é que você existe como uma silhueta
em recordações banais
nos instantes de blackout
você é um homem sol sem brilho
e o calor não faz tão mal não me aquece
não me esquenta

a solidão te veste bem

sábado, 8 de outubro de 2016

te mandarei todo o meu amor todo dia numa carta selada com um beijo

1. há de reconhecer palavras
costuradas
sigilo de uma mudez que
nos pertence por necessidade
há de descrever
ao lembrar da memória falha
o ato de reler
lembranças inexistentes
e desistirá
não por motivo de fraqueza
asco comum
de uma ira irreversível
é por mera delicadeza
esse assombro
a firmeza dos ombros
fardo de um silêncio incansável
2. em um movimento leve
os lábios
esses involuntários
hão de falecer em diálogo

domingo, 2 de outubro de 2016

Escrever

               “Essa solidão, para abordá-la, é preciso atravessar a noite”

Feito silenciamento, sinto as palavras embargarem a escrita. Se escreve apesar do desespero, e aliando-se a isso. Estar livre, selvagem e úmida, urgir e sangrar a carne e a tinta, remoer e glutinar um corpo descartando o medo, há pavor, nunca se está realmente só.

A casca descasca as paredes da casa, o corpo, um corpo rígido, violento, o território extenso entregue à página. Firme, seguro e infindo, tecido e cal, rotina e nada. Nada foi escrito que não se possa dizer, é nesse atravessamento de muralhas que o escrevente permanece inquilino de uma muda solidão.

Impossibilidade de travessia, trânsito dos silêncios em arquivos indisponíveis, o relógio sempre acima do tempo de reclusão, inumerados sistemas submetidos à mercadoria dos afetos – amanhece quando a escrita acaba. E morre o diálogo. Morte à fala cortada antes do verso. Duras declara que tudo escreve. Tudo
diz.
              “Sou a banalidade. O triunfo da banalidade”

*título: ensaio de Marguerite Duras

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

ainda criança o vento se aliava
às corridas pelo bairro
crescido
tão agilmente
as pedrinhas por volta do parque
no centro da rua
criavam folia junto aos pés
que pouco firmavam estadia ao chão
tamanha era vontade do ser
tímida buscava um buraco
onde se esconder
fazia disso brincadeira
e me sentia muito inadequada
quando surgia à luz de olhos arregalados
que moravam dentro do que
se fazia em mim
tinha estórias pra contar enfim
alugava diário cor lilás sabia
só página vazia suportaria
tanta infância
me descobri sozinha
levava as mãos em suspense
até locais onde a pele frisava em eriço
tamanha ousadia
o corpo como trilha desfrutava
da curiosidade dos gestos
e se revelava
um país das maravilhas
como lia nos contos apanhados
na estante do meu pai
toda vez quis buscar estrela subindo
no banco da cozinha corria
subia
e não tem luz
antes ou no instante que narro estória
nem agora
mas a infância
permanece ainda aqui
no verso na astúcia dos dedos
pendurada no quadro na mesa da sala
em tudo que escrevo