café e dores

café e dores

segunda-feira, 11 de março de 2013

Doces amargos, céu-cor-de-lápis

Está frio, muito frio. Não sei se conseguirei escrever tudo que preciso, essa coberta de lã não está aquecendo meus pés, tenho medo de não conseguir escrever.

I - Minha vida sempre foi muito doce, como algodão doce, me derretia toda por esse mundo tão bonito e gostoso. Ficava feliz quando corria pelo campo atrás da minha casa branca, o chão verde era macio e fazia carinho nos meus dedinhos, sempre depois de muita corrida eu deitava no chão com cheiro de planta fresca e era quase engolida por Cruela, minha cachorrinha, ela sempre estava feliz, ela era muito feliz.
Quando fiz seis anos as coisas foram mudando para mim, eu não conseguia entender as coisas, mas meus papais pareciam preocupados comigo depois que fiz alguns exames em que tiveram que enfiar uma agulha no meu braço, nesse dia eu passei uma vergonha tão grande! Chorei, chorei e gritava, só conseguiram me fazer parar depois de um pirulito enorme. Bom, a partir desse dia nada mais foi igual, me obrigavam a comendo legumes, tinha que engolir uns doces que não eram doces, outro dia ouvi papai falando sobre câncer e que eu precisava dobrar a dose de ''remédios'' e apontou para os tais doces amargos, que ficavam presos na minha garganta por um tempão até eu sentir descer.

II - Tenho que contar algo muito, muito, muito triste que aconteceu, foi em um dia de sol quente e suador, o céu estava tão azul que parecia a cor do meu lápis de fazer pinturas. Estava na cama, fazia um tempinho que eu não tinha forças para brincar no campo verde ou até mesmo com minhas bonecas de porcelana, quando decidi levantar para ir fazer xixi e tomei um susto enorme, Cruela estava toda molinha no chão com a língua para fora, fui tentar ver qual era a brincadeira mas ela não pulou em cima de mim, nem ficou feliz. Comecei a  gritar muito alto o nome dela para ver se me ouvia mas ela não queria acordar daquela brincadeira chata, mãe chegou e logo me afastou, ela soltou um gemido alto depois que viu a cena, depois disso eu não sei mais o que aconteceu, só sei que acordei em um lugar estranho e engraçado.

III - Lembro que quando abri de leve os olhos minha cabeça doía, eu estava deitada em uma cama macia mas aquela não era a minha, era um quarto todo branco e por mais que minha casa fosse branca, o meu quarto era rosa, lá não tinha minhas bonecas e os ursos, apenas uma mesa vazia e um sofá que provavelmente era diferente da minha cama macia. Estremeci quando olhei para os braços e estavam cheios de tubos transparentes ligados a eles, quando levantei-os doeu muito, tinha algo dentro da minha pele e eu comecei a berrar pelos meus pais e quando eles apareceram, estavam com os olhos vermelhos, mãe ainda deixava algumas lágrimas correrem pelo rosto rosado, eu chorei com ela. Não sabia porque estava chorando, mas eu chorava. Acho que deixei papai e mamãe tristes por chorar tanto do meu rosto ficar igual um tomatinho e das lágrimas secarem.

No segundo dia, um moço todo de branco apareceu no quarto, ele tinha o rosto tão sério e triste, ao contrário das ''enfermeiras'', eu as achava tão lindas e ficava admirando enquanto elas cuidavam de mim, mas eu não sei porquê precisava ficar trancada naquele quarto com tamanha dor e cuidados, mas também não me importava, não tinha ânimo para fazer as coisas que fazia antes. O moço de branco disse algo para mãe que a fez chorar como no primeiro dia que entrei nesse quarto, só que dessa vez eu não chorei junto, eu não tinha forças para isso, era tão estranho!

Perguntei o que estava acontecendo, mãe se ajoelhou ao pé da cama, segurou minha mão com uma força delicada, abaixou a cabeça e parecia desesperada, eu alisei seus cabelos com a outra mão e disse que estava tudo bem, eu não sabia o que dizer, mas eu queria chorar com ela para não deixá-la sozinha, poder dizer ''mamãe, eu estou aqui contigo, você vai ficar bem'' mas eu não pude porque algo me impedia de tomar alguma atitude de filha, agora eu era apenas uma alma triste que havia entrado em contato com a dela, o silêncio falou por nós duas durante muito tempo até ela levantar a cabeça e dizer que eu era uma boa menina e que o ''médico'' (acho que era o moço de branco) disse que eu iria para o céu, que encontraria Cruela e a Deus. Disse que só pessoas boas vão para lá, que quem fica aqui não é bom. Perguntei se ela e papai viriam comigo e vi no rosto dela uma expressão de dor, daquelas quando eu ralava os joelhos e daí eu chorei, como nunca havia chorado, mesmo depois de ter ralado feio o braço uma vez enquanto subia as escadas correndo.

Depois que ela saiu eu fiquei pensando se eu era uma menina tão boa assim mesmo, me senti uma menina má por deixar papai e mamãe aqui sozinhos, eu sei que eles são bons. Animei-me logo ao pensar no céu e aquela tristeza foi embora, eu queria tanto tocar naquele céu-cor-de-lápis e logo comecei a rir ao imaginar correr com Cruela por lá, deve ser mais macio que os campos verdes atrás da minha casa branca. Eu só quero ir para lá logo e sair desse quarto branco.

Tenho que parar de escrever pois agora eu estou tremendo, e você?

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